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Mirabai: vida, poesia e o Bhakti Yoga do amor devocional

  • Foto do escritor: Dhirak
    Dhirak
  • 22 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Conheça a vida de Mirabai, sua poesia devocional, o Bhakti Yoga e por que sua mensagem de amor e liberdade espiritual continua atual.


Mirabai não cabe facilmente na história. Talvez por isso continue tão viva. Princesa por nascimento, santa por devoção, poeta por necessidade interior, ela atravessa o século XVI até hoje como alguém que recusou separar amor, corpo e espiritualidade.

 

Nascida por volta de 1498,  no Rajastão, Mirabai cresceu em um contexto profundamente hierárquico. Desde cedo, porém, sua devoção a Krishna já destoava do esperado. Há relatos de que ainda criança ela dizia que Krishna era seu verdadeiro esposo, uma afirmação que, mais tarde, deixaria de ser apenas simbólica e se tornaria uma escolha existencial.

 

Casada por obrigação política, Mirabai nunca se integrou de fato à vida da corte. Sua devoção era pública, cantada, dançada. Ela frequentava templos, se misturava com devotos de castas diversas, cantava em êxtase. Isso era visto como escândalo. O que para ela era entrega, para a sociedade era desvio.

 

Com o tempo, Mirabai abandona completamente a vida palaciana. Passa a viver como peregrina, sustentada pelo canto e pela devoção. Não deixa tratados, não funda escolas. O que permanece são canções devocionais (bhajans) transmitidas oralmente, repetidas por séculos, sempre um pouco diferentes, sempre vivas.

 

Mirabai viveu o Bhakti Yoga em sua forma mais direta: o amor como caminho espiritual.

Não um amor abstrato, mas vivido no corpo, na voz e na memória.

 

No Bhakti Yoga, a emoção não é um problema a ser superado. Ela é o próprio meio de transformação. Amar Krishna, para Mirabai, exigia entrega total e isso incluía perder a segurança social, a reputação e até a proteção familiar, disolver completamente o seu ahankara (ego)

 

Ao fixar o coração no Amado, todo o resto perde o poder. Esse é o ponto central do Bhakti: quando a devoção é profunda, o ego se afrouxa e algo mais essencial pode surgir.

 

 

A canção como prática espiritual

As composições de Mirabai não foram feitas para leitura silenciosa. São canções, criadas para serem cantadas. O sentido não está apenas nas palavras, mas no som, no ritmo e na repetição.

 

Cantar o Nome de Krishna não é descrição é presença.

A voz se torna meditação. O corpo, instrumento.

 

É por isso que suas canções atravessaram séculos sem perder força. Elas não pertencem a um livro, mas à experiência.


Um poema de Mirabai (tradução livre)

 Antes do poema, um cuidado importante:

traduzir Mirabai é sempre uma aproximação. Seus versos vêm de dialetos do hindi antigo, transmitidos oralmente, cheios de ritmo, emoção e ambiguidade. Nenhuma tradução será definitiva.

 

A seguir, uma tradução livre, pensada para preservar o espírito do poema:

 

O mundo diz que enlouqueci,

mas eu sei o que encontrei.

 

Abandonei honra e vergonha,

rompi com tudo o que prende.

 

Bebi o néctar do Nome,

e agora não consigo esquecê-lo.

 

Giridhara é meu único refúgio,

não conheço outro caminho.

 

Aqui, Mirabai resume sua vida inteira. “Honra e vergonha” representam os mecanismos sociais que moldam o ego. Ao abandoná-los, ela não se perde ela se encontra. O Nome de Krishna aparece como algo que embriaga, ocupa a mente e reorganiza a vida.

 

Uma das canções mais conhecidas atribuídas a Mirabai é “Mere To Giridhar Gopal” (“Para mim, só Giridhar Gopal”).

 

Uma interpretação clássica e amplamente respeitada é a de MS Subbulakshmi, que transmite com clareza a devoção simples e profunda da tradição bhakti.

 


 

Escutar a canção ajuda a compreender algo que o texto não alcança sozinho: a doçura, a firmeza e a entrega que atravessam a poesia de Mirabai.

 

Por que Mirabai ainda importa hoje

Mirabai continua atual porque toca um conflito que ainda vivemos:

o choque entre viver de forma autêntica e atender às expectativas externas.

 

Ela foi mulher em um contexto que não permitia escolhas. Foi devota em um sistema que exigia controle. Ainda assim, escolheu amar sem concessões.

 

Em um tempo em que espiritualidade muitas vezes vira método, produto ou identidade, Mirabai lembra algo simples e radical:

a transformação não acontece apenas pelo entendimento, mas pela entrega.

 

O Bhakti Yoga, como ela viveu, não exige perfeição nem erudição. Exige verdade. Exige coração presente.

 

Talvez seja por isso que suas canções ainda são cantadas. Não porque explicam, mas porque tocam.

 

 

 

Bibliografia recomendada:

HAWLEY, John Stratton. Three Bhakti Voices: Mirabai, Surdas, and Kabir. Oxford University Press, 2005.

SCHELLING, Andrew (trad.). The Love Songs of Mirabai. Shambhala, 1994.

ALSTON, A. J. (trad.). The Devotional Poems of Mirabai. Motilal Banarsidass, 1980.

RADHAKRISHNAN, S. Indian Philosophy, vol. 2. George Allen & Unwin.

 
 
 

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