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Yoga, estresse e ciência: Quando os biossinais confirmam o que os sábios já sabiam

  • Foto do escritor: Dhirak
    Dhirak
  • 16 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Como professor de yoga, sempre me chamou a atenção o fato de que, muito antes da existência de tecnologias modernas como sensores cardíacos, exames de imagem cerebral ou registros elétricos do cérebro, os textos clássicos do yoga já descreviam com clareza os efeitos do estresse sobre o corpo e a mente e, sobretudo, os caminhos para sua dissolução.

Ao ler o artigo “Reducing Stress with Yoga: A Systematic Review Based on Multimodal Biosignals”, publicado no International Journal of Yoga, tive a sensação de estar diante de um diálogo raro e necessário: a ciência contemporânea colocando números, imagens e medições objetivas exatamente onde os yogis antigos já haviam colocado prática, observação e sabedoria.

Trata-se de uma revisão sistemática, baseada no protocolo PRISMA, que analisou 34 estudos científicos sobre a redução do estresse por meio do yoga, utilizando biossinais, ou seja, indicadores fisiológicos mensuráveis do funcionamento do corpo.

 

O estresse como perturbação do fluxo natural

Nos Yoga Sūtras, Patañjali define yoga de forma direta:

“Yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ” (YS I.2)

Yoga é a cessação das flutuações da mente.

O que hoje chamamos de estresse crônico, a tradição descreve como uma mente constantemente agitada, reativa, incapaz de repousar em clareza. O artigo científico confirma que o estresse é um fenômeno multifatorial, envolvendo simultaneamente:

Sistema nervoso central (cérebro e medula)

Sistema nervoso autônomo, dividido em:

Simpático (resposta de luta ou fuga)

Parassimpático (resposta de descanso e recuperação)

Sistema endócrino (hormônios do estresse, como o cortisol)

Sistema musculoesquelético (tensão muscular crônica)

Na linguagem do Haṭha Yoga Pradīpikā, isso equivale a um prāṇa (energia vital) desorganizado, circulando de forma irregular pelos nāḍīs (canais súteis por onde passa a energia vital do corpo e mente), gerando instabilidade física, respiratória e mental.

 

As ferramentas do yoga: antigas, integrativas e precisas

O estudo mostra que o yoga atua de forma integrativa, exatamente como os textos clássicos sempre ensinaram, combinando:

Āsanas: Posturas corporais que estabilizam o corpo

Prāṇāyāmas: Técnicas respiratórias que regulam o fluxo do prāṇa

Meditação (dhyāna): Cultivo da atenção estável e contínua

 

Patañjali descreve o āsana não como esforço excessivo, mas como:

“Sthira-sukham āsanam” (YS II.46)

A postura deve ser estável e confortável.

 

A ciência observa isso quando mede, por exemplo, a atividade muscular por meio do EMG (Eletromiografia), mostrando redução da tensão após a prática. O conforto interno, por sua vez, se reflete em mudanças claras no sistema nervoso autônomo.

 

Quando os biossinais encontram o prāṇa

O grande diferencial do artigo é demonstrar que os efeitos do yoga não são apenas experiências subjetivas, mas mudanças fisiológicas mensuráveis, observadas por meio de tecnologias biomédicas como:

EEG:  Eletroencefalograma

Registra a atividade elétrica do cérebro. Estudos mostram aumento de ondas alfa e teta, associadas a estados de relaxamento, presença e atenção plena.

ECG:  Eletrocardiograma

Avalia a atividade elétrica do coração, permitindo observar alterações na frequência cardíaca.

HRV:  Variabilidade da Frequência Cardíaca

Mede a variação entre os batimentos cardíacos, sendo um dos principais indicadores de equilíbrio do sistema nervoso autônomo e de resiliência ao estresse.

fMRI:  Ressonância Magnética Funcional

Analisa alterações na atividade cerebral associadas à emoção, atenção e autorregulação, mostrando redução da reatividade da amígdala e maior ativação do córtex pré-frontal.

GSR:  Resposta Galvânica da Pele

Avalia alterações na condutância da pele relacionadas à ativação do sistema nervoso simpático. A redução da GSR indica menor estado de alerta e estresse fisiológico.



 Medidas comuns de biossinais relacionados ao estresse investigadas durante diferentes modalidades de Yoga. EEG: Eletroencefalograma, ECG: Eletrocardiograma, EMG: Eletromiograma, fMRI: Ressonância magnética funcional, GSR: Resposta galvânica da pele




Na linguagem do Haṭha Yoga Pradīpikā:

“Quando o prāṇa se move de forma estável, a mente naturalmente se aquieta.”

(HYP II, sentido geral)

 

Do estado de “luta ou fuga” ao estado de presença

Os dados científicos mostram uma transição fisiológica clara promovida pelo yoga:

Redução da ativação do sistema nervoso simpático

Predominância do sistema nervoso parassimpático

Melhora da regulação emocional

Menor reatividade automática ao estresse

Maior coerência entre cérebro e coração

 

Nos Yoga Sūtras, esse processo se aproxima do caminho de pratyāhāra (interiorização dos sentidos) e dhyāna (meditação), estados em que o praticante deixa de reagir compulsivamente aos estímulos internos e externos.

 

“Tataḥ kṣīyate prakāśa-āvaraṇam” (YS II.52)

Então, o véu que obscurece a clareza é removido.

 

Ciência como aliada da tradição

Para mim, como professor de yoga, estudos como esse não substituem a tradição, eles dialogam com ela. A ciência oferece uma linguagem que permite comunicar os efeitos do yoga a profissionais da saúde, educadores e pessoas que precisam de evidências objetivas para confiar.

O yoga se revela, mais uma vez, como aquilo que sempre foi:

uma prática de autorregulação profunda, capaz de reorganizar corpo, respiração, sistema nervoso e consciência.

A diferença é que agora, além dos versos sânscritos e das instruções dos textos antigos, temos gráficos, imagens cerebrais e biossinais confirmando o que os sábios já ensinavam há séculos.

 

Fontes e leituras recomendadas

Este texto nasce do encontro entre a tradição milenar do yoga e a pesquisa científica contemporânea. Para quem deseja aprofundar esse diálogo com mais rigor, clareza e autonomia, deixo abaixo as principais fontes que inspiraram este texto e que recomendo fortemente como estudo.

 

Artigo científico: Kumar, S. et al. (2023). Reducing Stress with Yoga: A Systematic Review Based on Multimodal Biosignals. International Journal of Yoga.

 

Textos clássicos do yoga:

Patañjali, Yoga Sūtra

Obra fundamental do yoga clássico, especialmente os capítulos II e III, onde são apresentados os conceitos de āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhyāna e a regulação das flutuações mentais (citta-vṛtti-nirodhaḥ).

Recomenda-se o estudo com comentários tradicionais para uma compreensão mais profunda do contexto filosófico.

 

Svātmārāma, Haṭha Yoga Pradīpikā

Texto central do Haṭha Yoga, com orientações detalhadas sobre āsanas, prāṇāyāmas, purificações e a relação direta entre respiração, prāṇa e mente.

Especialmente relevantes são os capítulos II e IV, que descrevem como a estabilização do prāṇa conduz naturalmente ao aquietamento mental.

 

Um convite ao estudo (svādhyāya)

Mais do que consumir informações, o yoga nos convida ao estudo contínuo (svādhyāya), à prática consciente e à experiência direta.

A ciência pode nos oferecer mapas, gráficos e medições; os textos clássicos oferecem direção, sentido e profundidade. Quando estudados juntos, eles ampliam nossa compreensão e fortalecem nossa prática.

 

Se você pratica yoga, seja como aluno, professor ou profissional da saúde, estudar essas fontes é uma forma de honrar a tradição, evitar reduções superficiais e aprofundar o verdadeiro propósito do yoga: a integração entre corpo, respiração, mente e consciência.

 Que este texto seja útil para todos vocês que acompanharam até aqui, um grande abraço!

Namaskar!

Dhiira Krishna

MATRIKA YOGA



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